Domingo, 7 de Junho de 2009

Picaphone Invitation

Este é meu novo cartão Picaphone, onde você pode ver todas minhas informações de contato atualizadas:  Meu Cartão

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Até mais,

Fabiano de Oliveira Moraes

O que é o Picaphone?
Picaphone é o primeiro motor de pesquisa de contato do mundo. Read More

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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Eu + Você = ?

Desde que nascemos, escutamos muitas coisas a respeito das relações
com o "sexo oposto" (vejam só que expressão curiosa!). Mais influentes
do que as histórias que escutamos são as que vemos e vivemos. Nas
relações entre tios, pais, vizinhos e amigos temos alguma noção e até
fazemos julgamentos sobre o que seja um namoro, uma paquera, uma
abordagem afetiva ou um casamento. As relações de amor e poder que
vivemos em casa talvez ajudem a definir (e a desdefinir) o que faremos
e seremos quando constituirmos nossos lares, que talvez nem cheguem a
ser isso. Nossa propensão ao desleixo, nossa tendência ao
desarrazoado, nossa vontade de sexo, nosso infinito respeito ao outro,
nosso jeito de pedir, nosso modo de ser a dois estão ligados aos
modelos que tivemos.

Essas histórias presentes e futuras não vêm do nada. Elas são
embrionárias em histórias passadas que terminaram por nos unir ou
desunir, por nos tornar menos ou mais passíveis de amor, de
abordagens, de vínculos. Não estávamos, no entanto, determinados a ser
bons ou maus amantes. Estávamos influenciados, de alguma maneira.
Ainda bem que é possível aprender, gostar e melhorar. Sabemos, no
entanto, que é necessária uma força muito intensa para que isso
ocorra.

Conheço gente que mudou muito com o tempo. Largas décadas foram
necessárias para que aquela agressividade imensa fosse dissipada e se
tornasse uma paciência quase inacreditável. Sei de gente que passou a
se cuidar mais e melhor, barba, cabelo e bigode, para agradar a
parceira. Ela, por sua vez, deixou de lado umas picuinhas e ficou mais
doce. Sei de gente que arranjou emprego, voltou a estudar, passou no
concurso, mudou de endereço, deu uma guinada na vida, só para
acompanhar uma pessoa que valia a pena. Esta pessoa, por sua vez,
também se influenciou pela outra, claro.

Não é um julgamento consciente, muitas vezes, que leva alguém a fazer
tudo isso, mas uma vontade que brota de uma relação que tem sido boa.
Não quero dizer que as pessoas devam mudar de personalidade só porque
estão namorando. Nada disso. Quero dizer que relações saudáveis e boas
fazem a gente mudar (para melhor). Relações que dão certo (ao menos
por algum tempo) e nos provocam alterações saudáveis são muito
importantes, podendo até mudar nossas vidas para sempre, ainda que a
relação se acabe um dia.

Vou falar de mim por falta de alguma experiência extracorpórea, mas
acho que outras pessoas vão poder se enxergar nestes exemplos (que até
podem ser ficção). Namorei pessoas que não me fizeram a menor
diferença. Só pude enxergar neles o que eu não queria. Ainda assim,
vejam, isso pode ter sido bom. De outro lado, penso que a experiência
deles comigo talvez os tenha mudado de algum modo. O que sei é que,
depois de mim, tomaram atitudes que os tornaram mais responsáveis,
respeitosos, respeitáveis, se casaram e tiveram seus filhos.

Certamente, a interação entre as pessoas surte efeitos muito
peculiares. O efeito de juntar A e B é único. Não se tem a mesma
relação duas vezes. Nem duas vezes a mesma relação. O que provoco em
alguém pode ser bom ou ruim. O que uma pessoa provoca em mim é
singular e nossa relação pode resultar em um efeito muito bacana, como
também pode ser algo tremendamente ruim para ambos. Por mais que dê na
gente aquela vontade grande de pôr a culpa no outro quando o namoro
está péssimo, é preciso deixar isso de lado. O namoro não funciona
entre os dois, mas cada um sabe de si. Se não entraram no namoro
juntos, então que saiam e encontrem parceiros que reajam melhor ao
modo de ser do outro.

Não é assim tão simples. Se fosse fácil terminar relacionamentos,
muito mais gente já estaria disponível pela cidade. Dá medo, dá
solidão, dá angústia, dá pena. Dá dúvida, dá medo de se arrepender, dá
certa pena de jogar uma história fora, dá raiva. É tão mais simples e
econômico quando dá certo! A energia gasta em uma relação é tão cara e
vital. Mas nem sempre é possível desfazer desgostos e mágoas. E então
é preciso romper. E a decisão pode demorar a ser tomada. Assim como a
ação pode demorar ainda mais.

Dizem as más línguas que os homens não gostam de dar cabo dos
relacionamentos. Contam por aí que eles preferem provocar o
rompimento. Levam a situação ao limite, até que a parceira resolve
detonar tudo. Traem, se deixam perceber desatentos e infiéis,
destratam, deixam de conversar, desligam. A moça, enciumada e nervosa,
passa a vigiar, perseguir, espionar, até quase ir à loucura. Explode e
termina. Antes que os homens me condenem à forca, vou dizer: é claro
que isto é um estereótipo. Sei de homens bem mais sinceros e corretos
do que esses aí.

Contam também que são as moças que gostam de discutir a relação, que
querem sempre deixar tudo em pratos limpos, que gostam de saber das
coisas que atazanam seus parceiros, que se cuidam bem só para se
sentirem sempre desejadas. Quando as moças começam a achar que há algo
de errado, elas conversam com as amigas, com a mãe, com amigos gays e
então tentam resolver a situação. Tentam uma negociação primeiro,
testam, vivem mais um pouco a relação, até que se decidem pelo
rompimento, do qual elas mesmas cuidam. Se bobear, ainda juram que
podem ser amigas do ex-parceiro. Mais estereótipos, claro.

Namorei pessoas que me fizeram uma diferença danada. Mudaram minha
vida, me tornaram melhor, me levaram a fazer escolhas acertadas, me
ensinaram (sem uma palavra!) a ser mais responsável, mais ágil, mais
correta, mais sociável e até mais carinhosa. Não me deram aulas de
etiqueta. A simples convivência com um ou outro me trazia enormes
benefícios. Antes de qualquer outra coisa, era bom admirar. A
admiração é um elemento importantíssimo nas relações e nem sempre
aparece na lista dos itens responsáveis pela união de um casal.
Aparece amor em primeiro plano, aparece amizade, aparecem parceria,
cumplicidade, desejo sexual, beleza, alegria, inteligência,
sinceridade, cuidado, entre outros substantivos, mas nem sempre a
admiração está lá.

Namorei gente muito admirável. O amor nem sempre era capaz de segurar
uma relação, mas a admiração que eu sentia era. Ou será que aquela
profunda admiração era amor? O desejo sexual já não sacudia o namoro,
o carinho já era raro, a beleza já se desgastara, mas a admiração
estava lá. É pena que tudo se transforma e dificilmente algo dura para
sempre. Ou melhor: ainda bem que isso acontece. O que é preciso é ter
olhos para notar quando as coisas mudaram e preferir sempre o melhor
que as relações podem dar.

fonte: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2746

Ana Elisa Ribeiro
Vale do Ipê Amarelo, 27/2/2009

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

A virtude de não enviar emails

A virtude de não enviar


ou Um manifesto pela civilidade on-line

O anonimato e a agilidade tecnológica não justificam ignorar o bom senso e a cordialidade.

Por ter resistido tanto tempo a este meio e por ter observado muito do que não gosto, uma das primeiras preocupações, ao colocar meu site no ar, foi evitar me juntar ao coro dos chatos. É com trepidação que envio e-mailscoletivos, jamais diários, de preferência curtos para não desperdiçar o tempo de quem não solicitou a mensagem. Não é novidade que, se a internet trouxe uma audiência planetária para muito conteúdo excelente que não teria sido revelado, deu voz a quem tem pouco a dizer. Ou quem tem algo a dizer mas quer decidir quando deve ser ouvido e por quem. 

Depois de seis anos morando no mesmo endereço, lamentei que o proprietário do prédio tenha decidido consertar o interfone. O aparelho quebrado era mais uma tênue trincheira contra surpresas e interrupções. Recentemente ouvi o barulho de um objeto jogado contra a minha porta. Ainda não tinha me vestido e felizmente não dei de cara com o turista que obteve meu endereço postal numa lista de divulgação e decidiu trazer o livro de alguém em pessoa. Pensei, qual será o próximo recurso? Sacos de areia? 

e-mail pode ter agilizado a nossa rotina mas pode ser também uma espécie de parente distante que resolve aparecer à sua porta sem aviso prévio. Ninguém está preparado para lidar diariamente com a enxurrada de parentes. 

Quem não tem sua pequena coleção de correspondentes convencidos de que merecem a sua atenção urgente para qualquer piada, inclusive as de mau gosto, qualquer divagação ou a enésima denúncia de que os americanos já redesenharam o mapa da Amazônia brasileira, prestes a ser ocupada pelo Tio Sam? 

Como o telefonema envolve um engajamento e uma cara-de-pau maiores e é fácil para o afligido deixar a secretária eletrônica pegar qualquer ligação, o e-mail proporcionou o estouro da boiada e torna um inferno potencial a vida de quem depende de ficar on-line em tempo integral para trabalhar. 

Um número limitado de pessoas tem seu telefone pessoal, mas qualquer esperto pode obter seu endereço eletrônico. Assim, um dia de trabalho hoje envolve uma constante negociação na vala comum dos remetentes ― amigos, interlocutores profissionais necessários, desocupados a distribuir mensagens coletivas com denúncias, abaixo-assinados e gracinhas, pedidos de favores e até estranhos grosseiros, acobertados pela distância. 

É natural que uma mídia recente como o e-mail produza excessos e desafie as normas de etiqueta que governam outras formas de comunicação. Aqui vai uma tentativa modesta de promover a civilidade e encontrar algum equilíbrio entre as vantagens da comunicação on-line e o enorme desperdício de energia que ela trouxe para a nossa rotina. 

Sei que os jovens que crescem com mensagens de texto, OrkutTwitter e outros recursos de benefício duvidoso não esperam tanto das boas maneiras cibernéticas. Mas a juventude ocupa menos de um quarto da nossa expectativa de vida e nada mais embaraçoso do que um adulto com modos de adolescente. 

Mensagens coletivas em geral
É melhor limitar o número de mensagens enviadas a mais de uma pessoa. Se o objetivo é marcar um jantar com cinco amigos, justifica-se copiar a mensagem. Quem volta de férias e quer contar suas aventuras com cópia para várias pessoas, deve saber que uma delas pode achar "o press release" uma indelicadeza. Ninguém se considera apenas um item numamailing list.

Arquivos anexados
Quando se quer mandar dados não solicitados para amigos ou profissionais, por que não evitar passar dever de casa para eles? Coloque a informação dentro do corpo da mensagem e não torture os outros que possuem computadores e softwares diversos com arquivos que não podem ser baixados. 

Gracinhas e manifestos
Quem está concentrado ao computador, tentando resolver problemas ou em busca de inspiração para escrever, detesta ser constantemente distraído por piadas e vídeos pueris postados no YouTube. Mande suas piadas e brincadeiras apenas para os amigos mais próximos, aqueles que não estão sob a pressão constante de prazos de entrega de trabalho ou que podem ignorar a mensagem para abri-la mais tarde. Evite também os manifestos, e-mails coletivos que denunciam uma injustiça local ou internacional. Lembre-se que a sua indignação não é desculpa para incomodar e interromper a rotina dos conhecidos. Quando amigos recebem mensagens suas, vão abri-las como se fossem comunicações pessoais e não uma denúncia do Greenpeace. 

Assunto (Subject) 
Quem precisa concluir uma tarefa ou quer apressar a comunicação, deve sempre preencher a lacuna do assunto ("subject"). Use palavras precisas ― "pedido de entrevista para hoje, segunda-feira", "dúvida sobre x ou y" ― e vá mudando as palavras do assunto/subject à medida que a correspondência progredir, para o recipiente entender que há uma informação nova. 

Pessoal x Profissional
Se a comunicação por e-mail ou mensagem de texto derrubou fronteiras entre o que é estritamente pessoal e profissional, não se justifica abusar da boa vontade de amigos com um fluxo excessivo de mensagens. Não se iluda ― a relativa informalidade do meio não lhe dá carta branca para tratar de um assunto de trabalho com um excesso de irreverência que pode se voltar contra o remetente, caso algo errado aconteça. 

Favores
Quem precisa de um favor, antes de enviar o e-mail pode fazer o teste: eu teria coragem de pedir o mesmo em pessoa ou por telefone? Se a resposta for "não", pense duas vezes antes de ir em frente. 

Dialetos
Aqui é a questão de geração. Nem todos têm obrigação de saber que "u" substitui you ("você"), ou que "LOL" quer dizer laughing out loud ("às gargalhadas"). Para os mais jovens, as abreviações usadas em mensagens de celulares são rotina. Mas, ao escrever uma carta de seu computador, não há justificativa para vulgarizar o texto com abreviações, não importa a sua idade. 

Limites
Cuidado ao transferir toda interação pessoal para a internet. Há pessoas que trabalham com assistentes que têm acesso à sua caixa postal eletrônica. É mais prático mandar uma frase curta por e-mail, a qualquer hora do dia, para obter uma resposta simples, sem incomodar. Mas avalie se o assunto é rotineiro. Conversas sobre questões delicadas merecem contato pessoal ou por telefone. Da mesma forma, se o seu endereço eletrônico pessoal é acessado por outras pessoas, deixe isto bem claro para o remetente não se expor sem saber. 

Discórdia
Se uma pessoa lhe irritar por qualquer telefone, e-mail ou num encontro, evite dar o troco por escrito pela internet. E-mails enviados sob o impacto emocional podem ser guardados por anos e ampliar desnecessariamente um conflito. O comando "enviar" é uma arma poderosa e imprevisível. Uma carta que seguiria pelo correio postal seria escrita com muito mais cuidado. Segure a mágoa e a indignação e espere uma oportunidade melhor do que o acerto de contas por e-mail. A sugestão vale igualmente para disputas de trabalho, romances, brigas de família. 

Privacidade
Considere a mensagem por e-mail um gesto de contato semelhante a um telefonema ou uma visita a alguém. O gesto consome o tempo do recipiente e, o fato de o remetente estar protegido da reação não justifica usar o tempo dos outros à toa. Da mesma forma, quem recebe e-mailrespeitoso ou justificado, não deve se esconder e fingir que não recebeu. A não ser por filtros excessivos de spam, as mensagens chegam ou são devolvidas ao destinatário. É mais fácil enviar uma resposta rápida dizendo que não tem tempo de tratar do assunto no momento ou não pode ajudar, do que provocar mágoas e mal-entendidos. A resposta imediata, ainda que curta e insatisfatória, é sua melhor aliada na luta diária contra a enchente de mensagens. 

Diferenças
A democratização permitida pela internet não significa que todos os recipientes são iguais perante o remetente. Se você conseguiu o endereço eletrônico de alguém famoso ou de um profissional que tem grandes responsabilidades, um servidor público ou um dirigente de empresa, não tente usar um acesso que não lhe foi oferecido, disparando opiniões não solicitadas. O típico profissional com muitas responsabilidades já enfrenta um fluxo enorme de mensagens. Tirar casquinha do prestígio dos outros tentando forjar uma relação que não seria formada no mundo real é um hábito crasso. Se você é o assediado em questão, colecione algumas frases educadas que ajudem os chatos a se mancar. Não é grosseria deixar sem resposta e-mails frívolos de um remetente que já recebeu uma mensagem sua encerrando a conversa com educação. 

Cartões eletrônicos
Não mande um cartão de Natal, Ano Novo ou sobre qualquer outra efeméride com uma foto de seu bebê ou seu animal de estimação para dezenas de pessoas com quem mantém relações distintas. Para alguns, a mensagem dá a impressão do contato impessoal e de exibicionismo. 

Ciberdoidos
Nada impede que uma pessoa desequilibrada publique suas obsessões on-line. Se o seu trabalho traz alguma visibilidade, de vez em quando é bom se "googlar". Há blogs, comunidades e outros sites que podem conter fotos da sua família e todo tipo de alegações. Uma troca inocente de mensagens com um estranho pode ser a origem da baixaria. 

Sites e blogs
Um território que ainda conheço mal. Como tantos estão em busca de atenção, uma boa parte da correspondência dirigida aos titulares de sites eblogs destina-se a promover o conteúdo do próprio remetente ("leia mais sobre isto no meu blog"). Um comentário colocado abaixo de uma reportagem às vezes nada mais é do que desculpa para plantar o seu linkno meio da discussão. É uma forma de autopromoção tão chata quanto o gesto do colega de trabalho que lhe encurrala no corredor com uma série interminável de fotos do seu recém-nascido. Cada site ou blog reflete a visão editorial do titular e o espaço para comentário não é uma democracia. É um convite a continuar a conversa, dentro de parâmetros arbitrários ― texto correto, sensatez, cordialidade ― estabelecidos por quem coloca o site no ar. 

Insultos e ameaças
Em 16 anos de TV me acostumei, naturalmente, com insultos de toda ordem que não respondia para não legitimar os desocupados. Mas também, ao longo deste tempo, comprovei minha teoria sobre a ambiguidade do remetente irado. Cada vez que respondo com educação um e-mail muito crítico mas civilizado, na grande maioria dos casos, a resposta vem se desmanchando de desculpas. No momento em que a pessoa percebe que há um ser humano real do outro lado, sente-se envergonhada do próprio destempero. 

Espero que as principais empresas de mídia acabem com o populismo de considerar todos iguais on-line ou de proteger a identidade de sociopatas. Um jornalista experiente, criterioso e ético no seu trabalho de reportagem fez por merecer o lugar que ocupa. Não deve ter sua produção achincalhada e dividir espaço com mentecaptos, coléricos e exibicionistas. Respeito é bom e todo mundo gosta. 

Por isso, o melhor método é mesmo, em dúvida, não apertar o "enviar". 

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pela autora. Originalmente publicado noluciaguimaraes.com. (Leia também "Não me envie a sua newsletter".) 


Lúcia Guimarães
Nova York, 26/1/2009

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Dez motivos para blogar

Dez motivos para blogar

1. Você pode (quase) tudo. Quando faltar inspiração, escreva uma lista de dez motivos para fazer alguma coisa. No final, acabará se divertindo.

2. É bom ter audiência, mesmo sem fazer idéia de quem são os leitores. Você apenas precisa aprender a lidar com essa relação meio íntima com leitores tão anônimos.

3. Com o tempo você percebe que sobrevive sem comentários. Segundo as estatísticas, apenas 1% dos leitores deixa um. Então pare de implorar pelos comentários dos amigos.

4. Blogar ajuda a organizar as idéias, exercitar a escrita e você ainda corre o risco de escrever algo realmente bom.

5. Amigos distantes, ou distanciados, se sentem próximos ao ler o seu blog. Você não precisa de orkut para se relacionar, e só se expõe se, e o quanto, quiser.

6. Você está deixando um registro histórico, da sua vida ou da sua época, embora isso pareça uma grande pretensão agora.

7. O fato de blog não dar dinheiro não é motivo para parar. Pense bem: você realmente não começou porque havia essa possibilidade.

8. Provavelmente você terá mais leitores do que se publicar um livro.

9. Você pode terminar uma lista de dez com nove itens e nenhum editor vai chamar a sua atenção.

Marta Barcellos, no recém-inaugurado Espuminha de leite, que já linca pra nós.

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Videogame também é cultura

Quarta-feira, 10/12/2008
Videogame também é cultura
Rafael Fernandes
Do Houaiss:

Cultura
Datação
sXV cf. IVPM

Acepções
■ substantivo feminino

5 Derivação: sentido figurado.
o cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social
Ex.: estudioso, possuía uma vasta c.
6 Rubrica: antropologia.
conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social
Obs.: cf. contracultura
7 forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais (de um lugar ou período específico); civilização
Ex.:
8 complexo de atividades, instituições, padrões sociais ligados à criação e difusão das belas-artes, ciências humanas e afins
Ex.: um governo que privilegiou a c.


Videogame é uma atividade de criação e entretenimento das mais criticadas. Costuma ser taxada de desperdício, inutilidade e/ou burrice ― em geral por quem não conhece, não quer conhecer ou não procura diferenciar o joio do trigo. Da mesma forma que existem livros mal escritos, músicas horrendas e filmes desprezíveis, nos jogos há do lixo ao luxo. E pegando as definições do Houaiss acima citadas, o videogame é cultura de muita gente que nasceu por volta dos anos 80. Penso que minha geração está para o videogame como a geração que viu o nascer e florescer do cinema. Em princípio, não faço uma comparação artística, mas sim comportamental: o fato de que parte dessa minha geração cresceu integrada com uma nova mídia de entretenimento, crescendo com ela e participando seus desdobramentos. Como aconteceu com o cinema há mais de 100 anos, estamos acompanhando o desenvolvimento dos consoles, jogos, sua influência social e até em outras mídias, como a própria sétima arte: pense em Matrix, 300, Speed Racer e adaptações diretas como Final Fantasy. A jogatina esteve e continua estando integrada à nossa vida. A disseminação dos jogos eletrônicos trouxe uma profunda mudança comportamental para muita gente ― o fato de existirem estereótipos para retratá-los (como o "roqueiro drogado", o "intelectual pedante", a "modelo-e-atriz burra") já é uma prova clara de seu impacto. Há que não queira admitir, mas esse universo existe, é grande e tem seus próprios códigos e rituais.

É uma atividade de entretenimento e, como outra qualquer, tem suas qualidades. Talvez não tenha um diálogo interessante como uma boa série, uma frase marcante de um livro, ou uma direção memorável como num filme, mas muitos têm visuais retumbantes, requerem coordenação motora, raciocínio rápido e, acreditem ou não, senso de estratégia. Também pode ser pura e simplesmente diversão ― qual o problema nisso? E não é uma atividade estritamente solitária, como muitos imaginam. O jogar junto ― em dupla ou grupo ― é costumaz. Videogame não é considerado "arte" ou "alta cultura". Um motivo pode ser a falta de críticos de jogos ― críticos num sentido mais amplo, e não comentadores da performance, jogabilidade e dificuldade. Alguém que possa descobrir algo mais neles, sutilezas e observações além do apertar de botões ou das dicas para avançar de fase. Talvez porque o assunto continue restrito à mídia (on-line e off-line) especializada. Mas muito provavelmente, como diz este texto da Esquire, porque é difícil observá-lo pelos "padrões artísticos" pelos quais são avaliados filmes, livros, músicas etc. ― e acho que nem precisa. Não é necessário tentar achar o Bergman do videogame, ou procurar traçar um (absurdo) paralelo com Dostoiévski. É outra coisa, outra mídia, outra expressão.

Além disso, por ser interativo, conflituoso (toda ação tem uma reação), atemporal (dá pra jogar inúmeras vezes o mesmo jogo, inclusive parando-o no meio) e com várias alternativas (ainda que limitadas), é quase impossível um jogador seguir o mesmíssimo "roteiro" que o outro. E não me refiro apenas a uma única "experiência", mas sim ao caminho ― diferente das artes, que por mais que cada um tenha sua própria experiência, deve seguir os mesmos destinos se consumidas do começo ao fim. Pense num jogo de "fases": a história é a mesma, mas cada jogador escolhe qual porta abrir primeiro, os números de inimigos "dizimados" difere, assim como o número de "vidas" que é usada, entre tantas outras coisas. Ou pense, ainda, num jogo de esporte. Ainda que as alternativas programadas possam ser limitadas (e que podem ser muitas), as variáveis disponíveis dão a sensação de serem tão diversas quanto ocorre na realidade. Mas um grande fator que impede sua avaliação mais profunda ― mais do que um jogo ― é o preconceito.

Acredito que a maioria das críticas venha da falta de contato e/ou conhecimento. Seja em novelas, filmes, seriados ou jornais o jogador é sempre o já citado estereótipo: o adolescente cheio de espinhas, abobalhado e sem tato para as mulheres. O amante de computador que atira em colegas de escola; o adulto que não consegue amadurecer; o geek total. E assim vai: sempre alguém com ausência de tino social. Não esqueçamos das absurdas indicações dos games como supostos catalisadores de tragédias como Columbine ― como se o bullying, problemas psicológicos anteriores, conturbações da sociedade e a cultura da arma nos EUA fossem detalhes insignificantes. Principalmente para quem tem mais de trinta anos, a idéia de jogar videogames é simplesmente rechaçada ― bobagem, coisa de criança ou de quem tem complexo de Peter Pan etc. Não é bem assim. Como já ressaltado, é uma atividade de entretenimento como outra qualquer: pode ser saudável como pode ser um mal.

Há os que culpam os videogames de infantilizarem adultos e deixar crianças hiperativas e viciadas. Em geral é um argumento, novamente, baseado no desconhecimento de causa. Se alguns adultos estão mais infantis e algumas crianças viciadas, pode ser um problema de momento social ― que não cabem ser dissecados por este texto. O excesso de videogame pode ser um efeito, talvez um sintoma, mas não causa. Se as crianças estão mais ativas, pode ser uma característica de geração; se estão bitoladas nos games pode ser um problema de educação ou ausência de limites. Novamente: o videogame não é a causa. Reclamações semelhantes ocorreram contra a TV (a "babá eletrônica") com a geração que cresceu nos anos 70 e 80.

Seu filho só joga videogame? O problema não é o jogo, mas quanto se gasta com ele. Não é a atividade ou a mídia em si, mas sim como nos relacionamos com ela. O mesmo vale para TV ou para qualquer outra atividade: excesso de exercício pode trazer males, tanto quanto se isolar na literatura, por exemplo. Para as crianças, imagino que os jogos de videogame deveriam estar numa cesta variada de atividades junto com leitura, lazer, estudos, ócio etc. Elas devem ser apresentadas às mais diversas produções humanas para adquirir conhecimento, saber suas opções e futuramente decidir sozinho ― isso é educação e liberdade de escolha. E convoco os pais a jogarem com seus filhos. Não será uma perda, mas sim um ganho de tempo com seu filho ― sejam curiosos, perguntem, tentem aprender, afinal, não são só os pais que ensinam. Em vez de assistirem novela das sete, Jornal Nacional e novela das nove, todo dia tirem um tempo para jogar e, quem sabe, em seguida, convidar os filhos para assistir a um belo filme ou ler um bom livro.

Não sou um louco viciado em videogame. Há tempos não tenho um ― provavelmente o mesmo período que penso em voltar a ter, mas os fatores tempo, dinheiro e prioridades acabam deixando essa vontade de lado. Mas tem feito parte de minha vida, de alguma forma. Tenho lembranças fortes até hoje de jogar River Raid no Atari com meu irmão; ou um dia à frente à TV jogando o Super Mario Bros 3 (no Nintendinho) com os amigos, cada um disputando "uma vida", tentando avançar no jogo ― ao nosso lado uma revista aberta, ensinando os truques de cada fase. Para depois irmos jogar bola na rua, ou passar um final de tarde falando besteiras. Recentemente, as gozações entre amigos antes, durante e depois de jornadas de Winning Eleven, alternadas por muitas conversas e muitas risadas. Seja antes ou depois de sair, ou simplesmente numa noitada de jogos como pretexto para juntar os amigos. Até hoje eventualmente jogo, via emulador, meu preferido: Mario Kart, do Super Nintendo, que tem a cara da Nintendo: a junção do lúdico com boa jogabilidade e competição, mas sem tantas dificuldades para se jogar. Muitas lembranças e diversão: sozinho ou acompanhado.

Não dissocio nenhuma dessas lembranças à memória de um jogo de futebol, da cena de um filme, do vento batendo numa árvore numa tarde de verão, de um momento de um livro. Como uma passagem memorável de Machado de Assis, um bom almoço, um passeio, as sensações de certos momentos me são retomadas através de lembranças de certos jogos, fases, conversas em torno dos games. Me lembro até hoje do frisson causado pelo lançamento do jogo Donkey Kong Country e seus gráficos inovadores (para a época). Ou a admiração do Nintendo 64 recém-comprado por um dos amigos e a falta de noção de controle inicial num de seus principais jogos, o Mario 64 ― e, principalmente, o momento que eu passava ali. E nenhum de nós virou um problemático por causa disso. O pior mal, na verdade, é o da ignorância e do pré-julgamento. É rotular alguma coisa sem o mínimo conhecimento de causa nem contextualização. Para quem ainda não tolera os videogames, meus pêsames. Eles estão aí há muito tempo e com muita força para se achar que vão passar ou que são irrelevantes.

Nota do Editor
Leia também "Civilizado?"


Rafael Fernandes
São Paulo, 10/12/2008

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Como excrever bem

 

Ivan Lessa

Exemplo errado ― Escrever é um verbo escrito e conjugado com S e não com X. O título desta croniqueta está totalmente errado. Tão errado quanto o uso abusivo dos advérbios em mente.

Exemplo certo ― O jornal que eu compro todos os dias passou uma semana anexando à sua edição normal, feito um brinde, uma pequena brochura de 24 páginas sobre o título geral de Como Escrever. Ou How To Write, em inglês. Li todos eles. Textos lúcidos e bem organizados sobre ficção, poesia, comédia, peças e roteiros cinematográficos, memórias e biografias, jornalismo e, por fim, literatura infantil.

Excelente leitura. Nada aprendi. Muito me diverti. História de minha vida.

Volta e meia, acompanho pelas nossas folhas uma discussão infindável que me persegue, e a muita gente boa aí também. Qual seja, se o jornalismo pode ser ensinado e se o jornalista praticante deve apresentar ou não diploma.

Não tenho a menor idéia. Não pretendo, a essa altura do campeonato, apresentar opinião a respeito. Sei que não freqüentei aula de jornalismo, não tenho diploma, destituído também sou das prendas extradomésticas e além-bar do tal do jornalismo. Tudo que escrevo é um exemplo claro de que estou por fora. Ou que fui-me embora. Ir embora implica em muitas ― mas muitas mesmo ― perdas. O diploma é um deles. Não é uma má.

Tenho livro publicado. Ficção. Mais ou menos fictícia. Não freqüentei aula. Matá-las e ir ver treino do Botafogo era muito mais interessante.

Li à beça. No tempo em que eu reunia a curiosidade e a paciência para ler tudo que me caísse às mãos. Sei de umas poucas noções básicas sobre, por exemplo, o que deve ser um romance. E.M. Forster me emprestou uma frase que sintetizo dizendo que sim, que um romance deve contar uma história. O importante é que Forster, danado de inteligente, bom de bola e chutando com as duas, iniciava a ponderação absoluta com uma ressalva muito a seu estilo e equivalente a um suspiro: "Oh, dear!" E prosseguia: "Yes, it must tell a story."

 Isso aí. Duro. Mas um romance tem que contar uma história. Com começo, meio e fim. Não necessariamente nessa ordem, como deixaram bem claro Joyce, Proust e algumas centenas de inovadores merecidamente obscuros.

Há que haver, ainda, estilo. Muito estilo. Romancista, jornalista, roteirista. Toda essa gente tem que ter um estilo. Uma voz. Desafinada, mas pertencente ao divulgador da notícia. Notícia que pode ser romance, nota de jornal, peça de teatro, roteiro de cinema.

O que é estilo? Temos que recorrer a Fats Waller (ou Louis Armstrong, dependendo de quem conta a história) que, quando perguntado por uma dama da melhor sociedade o que era o jazz, respondeu, "Se tem que perguntar para saber, não adianta eu explicar que a senhora não vai entender."

Feito samba, estilo não se aprende no colégio. Mas há que se virar e rebolar, rebolar, rebolar até encontrar um dando sopa. Ou depois de se quebrar muita pedra. Sem estilo nada acontece. Com estilo, tudo é possível.

Segundo o jornalista (aliás mais para o ensaísta) Simon Jenkins, a coleção, no pequeno volume dedicado ao jornalismo, dedica algumas palavras valiosas, para passivos e ativos da nada nobre arte de praticar o que sai nos periódicos. Diz ele que o jornalismo se expressa mediante a palavra escrita, embora essa não seja a sua essência.

Sempre segundo Jenkins, jornalismo pode ser ensinado, sim, senhor. Deve, inclusive, fazer parte de qualquer currículo. Com um senão, ou adendo, dos mais importantes: antes de mais nada, há que haver, naqueles que o praticam, uma intensa curiosidade pelo mundo e um profundo amor pela palavra escrita.

Falou e disse, comento mentalmente, no meu melhor, ou pior, cafajestês.

Acrescento apenas que jornalismo é sobre contar para as pessoas coisas que elas não sabiam antes. Ou que pensavam que sabiam.

Tão sabendo? Moraram? Isso aí.

Nada aprendi e tudo esqueci. Mesmo a coleção que o jornal se deu ao louvável trabalho de produzir e distribuir como brinde. Até o início dessa digitação toda destas linhas. Num lembro. Não sou, nunca fui, nunca quis ser, jornalista.

Apenas, como um moleque de praia, ou vigoroso lateral direito da várzea, bater uma bola, dar meus pontapés, alijar da peleja (e escrever é renhida disputa) os perigosos dianteiros da equipe adversária.

Time adversário? A vida. Vocês. Todo mundo.

Ivan Lessa

Londres, 10/11/2008

Sábado, 8 de Novembro de 2008

Carros? Caraca!

Duas coisas que o homem não tolera ouvir de uma mulher: insinuações sobre o tamanho do seu sexo e que dirige mal. O resto é negociável.

É óbvio que o tamanho do sexo somente se refere ao diminutivo. Quando ela pedir sua "coisinha", mesmo carregada de ternura, mesmo sem querer, é para falir na hora. 

"Cadê o teu pauzinho?" merece uma resposta sem piedade:

― Calma, mulher, estou procurando. Estranho, eu o vi ontem. 

Ternura às favas. Homem ― no seu íntimo ― quer ser dotado de "trabuco". Ele empregará somente a régua na adolescência com a certeza de que ultrapassará os quinze centímetros. Na indecisão, não ousará enquadrar seu instrumento de trabalho ao longo da vida e se ausentará de qualquer discussão sobre os animais superdotados daNational Geographic. Será adepto do escuro e do clique do abajur. Não coçará muito o saco para não chamar atenção. É educado por insuficiência de recursos. Tanto que uma das melhores invenções higiênicas foram as paredes que colocaram entre mictórios nos aeroportos, preservando a identidade secreta dos rapazes. 

Não necessita ser algo descarado. Sugestões femininas aniquilam um relacionamento. 

Alguém imagina o desespero de um homem ao escutar de sua parceria que ele vá mais fundo, mais fundo, aos gritos lânguidos de "mete mais", quando ele já não tem mais o que oferecer? 

De acordo com suas potencialidades, o cara está lá no útero, e o corpo sinuoso dela permanece insensível. Isso é o que caracterizo de "Nervos de aço", sr. Lupicinio Rodrigues. Dor-de-corno são nervos de alumínio. 

Os atenuantes deprimem tanto quanto. Receber a comiseração de frases como "tamanho não é documento". Qual é o motivo dessa pérola, senão a de lembrar que seu órgão é diminuto? 

Duvido que Long Dong Silver, ator descomunal no sentido físico, confessasse numa mescla de sabedoria e arrependimento: "tamanho não é documento". Quem tem tamanho, não precisa de documento. Quem não tem, provará todo o momento que é normal. Ou será extremamente sensível para compensar a ausência de protuberâncias. 

Demorei um tempão para usar sunga. Não cheguei à façanha de empregar a branca, que transparece até o pantanal. Compro as mais coloridas e extravagantes, com desenhos e mapas, para distrair o volume das espectadoras praianas. Não me peça mais, estou no grau máximo de minha evolução, em comparação às largas bermudas da adolescência. Sunga sortida significa minha aposentadoria por invalidez. 

Pior do que as indiretas em relação ao corpo é suportar as mulheres comentando o desempenho no trânsito. Carro é a prótese masculina. 

Um risco na lataria revela uma cicatriz nos países baixos. Amasso é sífilis. Num vendaval, telhas voaram ao capô. Afundou uma mera impressão digital. Envergonhei-me da versão que transmiti ao corretor, de que teria que pintar o carro inteiro. Exagerei, parecia que a casa havia soterrado o veículo. Quando ele foi vistoriar, não encontrava o arranhão. Nem eu. 

Curiosamente compro carros cada vez maiores. De um Fusca para um Gol, de um Gol para Cross Fox, minha próxima aspiração é um jipe e devo terminar com uma colheitadeira. O carro é a vingança peniana. O revide ao complexo, uma revolução no carma. Entre o psiquiatra e a concessionária, fico com a concessionária. 

A única chance que tenho para exibir minha virilidade. De me sentir alto e gostoso. É um instinto filial à máquina. Ela me protege das suspeitas. As guerras são carros à última potência de sujeitos com desproporções eretas. 

Feliz era meu pai que estacionava um Galaxy preto nos anos 70. Feliz era meu avô que transitava com um Studebaker vinho na década de 50. Os carros eram naturalmente banheiras de hidromassagem. Dava até para transar em seus estofados ― glória chauvinista ― sem encontrar o câmbio. 

Na primeira vez em que eu saí com uma menina, ela inventou de cochichar: "você muda a marcha de forma grosseira!". Seu propósito generoso era interromper o nosso terrível silêncio e puxar assunto. Para quê? Nunca mais a vi. Sequer justifiquei o sumiço. Desapareci por completo num maço de cigarros. Ela nunca entendeu. Tomara que leia este texto. 

Foi muito infeliz e sincera, infeliz porque sincera. É igual a olhar para ela e disparar: "percebi celulite, estrias e gorduras localizadas, mas gosto de você assim". Alguma mulher agüentaria o tranco? 

O carro para o homem é seu salão de beleza, sua massoterapeuta, sua cirurgia plástica. 

A reprovação no exame de habilitação produzirá mais estrago emocional do que rodar no vestibular. A tragédia será completa acrescida da aprovação no mesmo exame e no mesmo dia da namorada. Há homens que não dirigem para não enfrentar esse constrangimento. Preferem ônibus, táxis e trens, com a esperança ecológica de que ajudam o planeta e, de tabela, sua estima. 

Minha mais ácida discussão com a esposa não foi no quarto. Ocorreu em plena estrada quando, nervosa pela cobrança, me aviltou de "motorista burro". Reagi com excessivas maldades que me arrependo amargamente. Nosso casamento não terminou por um triz ou terminou ali e começou de outra forma e não percebemos. Tomei uma via errada porque ela me aconselhou a permanecer à direita e o acesso era na esquerda. Ela não tinha obrigação de me orientar, eu estava ao volante enxergando as placas. Homem quando decide errado culpa a mulher. Foi o que fiz. Mas ela poderia ter me chamado de "burro" que o sangue não subiria à cabeça, inclusive a ajudaria na acusação. O "motorista burro" me encrespou. Uma reação defensiva. É o equivalente a debochar da ejaculação precoce. 

Se carro tivesse caixa-preta, descobriríamos que a maior origem dos divórcios são os diálogos banais e conflituosos entre o piloto e a co-piloto. 

No fim do ano, o condutor de uma D-20 apanhou meu carro num cruzamento. Deixou a faixa do canteiro, obrigado a fazer curva, e seguiu reto. Como um jogo de xadrez, pulou pistas e se esqueceu de localizar as demais peças. Entrou na minha porta lateral enquanto eu dobrava. 

A imperícia foi dele. Pulei do carro pronto para refrega. Mas o motorista logo admitiu a falha, passou seus telefones e dados, antecipou que o conserto seria por sua conta. Uma gentileza em pessoa. Dispensei as testemunhas, a ocorrência e o diabo das desconfianças. No dia seguinte, era um homem distinto, arrogante e veemente. Avisou que não cometeu nenhuma infração, e desligou o telefone na minha cara, ameaçando que iria me processar. Sua seguradora endossou a história de um modo invertido: que eu cruzei o carro dele. Sua mulher também descreveu essa versão. Já desacreditava de minha sanidade. Entendi uma das estratégias masculinas para fugir da responsabilidade em acidentes. Fingir-se de cordial para evitar o flagrante. Ao mesmo tempo, dificilmente um homem admitirá que falhou no trânsito. A questão não é financeira, é de orgulho. Não pretende carregar o estigma de que é "facão" diante dos seus próximos. É colocar sua sexualidade à mostra. Prefere mentir a enfrentar a gozação dos amigos e a dúvida de sua segurança com as mulheres. 

Diante de peças irrefutáveis, forjará teses de que foi vítima. Repetirá infinitamente sua versão fantasiosa até convencer sua memória. 

Excesso de velocidade, infalibilidade e truculência são variações de homens mal resolvidos. Carro é evidente drama de reconhecimento sexual. A pista vira uma cama; o retrovisor, espelho no teto. Garanhões sobrevoam com vidro fumê, confundindo o automóvel com a extensão das pernas. 

Falta humor no trânsito, aceitar as imperfeições para não repeti-las. E mais honestidade. E mais colhão. Ainda que seja pequeno.